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A Revolução Comunista e Suas Experiências.
Revisão em 21-JAN-2003.
 

I. 14.
 
De gent esclave chansons,chantz & requestes,
Captifs par princes & seigneur aux prisons:
A l'avenir par idiots sans testes
Seront receus par divins oraisons.

I. 14.

Da gente eslava, canções, cantos e reivindicações
Cativos pelos Príncipes e Senhor às prisões
A lhes advir por idiotas sem experiência(juízo)
Serão recebidos como divinos (e grandes) oradores

     

         Esta quadra refere-se ao  advento do comunismo e das características gerais das quais se revestiu. Igualmente, Nostradamus começa postular seu julgamento sobre esse movimento, indicando  a verdadeira natureza dos fatos e personagens históricos associados, em particular relacionados com a Rússia e estendido a outras Repúblicas limítrofes, que por setenta e três anos e oito meses, em termos globais,  constituíram a União Soviética, da Revolução de Outubro de 1917 até  a eleição de Boris Yeltsin em junho de 1991, que é a data geralmente aceita como a de seu término. (ver  VI,74)

        O primeiro verso estabelece a nacionalidade predominante dos envolvidos (eslavos=russos, esclaves= escravizados, pessoas destituídas).

        É importante compreender os papéis da servidão e da escravidão na Rússia, para entender  os componentes do czarismo embutidos na Revolução Comunista Russa.

        Com a eclosão das idéias liberalizantes que acabaram por desaguar na Revolução Francesa, a nobreza européia assumiu duas posturas distintas:

        1) muitos países adotaram uma política anti-escravagista e reduziram ou eliminaram a escravidão/servidão, principalmente do campesinato

        2) a Rússia, contrariamente, viu nas idéias libertárias da Revolução  Francesa uma ameaça e nadou contra a correnteza.  Catarina, a Grande, por meio da distribuição de terras - muitos dizem que a seus inúmeros amantes (e parece haver pelo menos uma quadra referindo-se a ela) -  acabou por aprofundar o regime de servidão - vassalos - e de escravidão.  A escravidão, na Rússia, só foi abolida oficialmente em 1861.

        É nesse cenário pós-escravagista que o embate de idéias da Revolução Comunista Russa se desenvolve e fortalece. Seus principais líderes, Lênin, Trotsky, Stalin, e outros, foram criados sob a cultura de uma sociedade anacrônica. Esse anacronismo acabou por se evidenciar no campo econômico-militar, com as derrotas da Rússia  para o Japão (1904/1905) e para a Alemanha (1918) e a subseqüente desorganização interna, da qual aproveitaram-se os bolchevistas para se auto-ungirem defensores do proletariado. Um proletariado do qual acabaram por ser os maiores algozes, como deverão mostrar as interpretações das Profecias de Nostradamus relacionadas a esse período.

        Sobretudo, a Rússia era essencialmente uma sociedade rural, tanto cultural quanto economicamente.  E uma das heranças mais terríveis do czarismo eram os campos de trabalho forçado na Sibéria. Em 1914, 9 milhões de pessoas viviam na Sibéria. Desses, um milhão eram prisioneiros. Lênin, Trotsky e Stalin passaram por períodos na Sibéria nessa condição.

        Essa introdução serve para justificar os dois primeiros versos. A gente escrava relaciona-se com a difícil situação de penúria do campesinato russo, justificando a comparação com um sistema de escravidão - ou servidão - do sistema econômico em que viviam. Juntando-se a isso, a exigência   da industrialização acabou por criar uma massa de trabalhadores submetidos a condições efetivamente restritivas, em que pese essa situação não ser unicamente uma decorrência do czarismo.

         Voltando ao primeiro verso, as canções mencionadas são bem conhecidas (Hino da Internacional Socialista, e outros)  e os cânticos, as passeatas, palavras de ordem repetidas em coro contendo reivindicações, ilustram a feição que a luta da Revolução Comunista assumiu e por conseguinte, o primeiro verso é bastante claro quanto ao seu significado.

        O segundo verso fala dos presos políticos. Como ele refere-se aos cativos pelos príncipes e senhor, está  indicando o regime czarista como o autor das prisões (era uma monarquia). Seigneur é uma das formas pelas quais Nostradamus designa o czar (ver I,52). Sobretudo, a polícia czarista, a Okrana, parece indicada, por elipse.

         O terceiro e quarto versos falam do caráter  carismático de seus líderes e da irresponsabilidade com que suas teses e experiências eram aceitas, em tudo uma confusa aplicação do que seria uma dialética hegeliana. As massas de destituídos  acabaram sendo as maiores vítimas dos regimes instituídos sob essa bandeira. Ideologicamente, por maiores que fossem as atrocidades cometidas por aqueles  que empunhavam a bandeira do anticomunismo, da extrema-direita e do conservantismo - de forma absolutamente insensível e egoísta - as atrocidades da Revolução Comunista de 1917  são ímpares na história e desequilibram o fiel da balança, mesmo considerando do outro lado a manutenção de um regime semifeudal anacrônico.

     É curioso notar que até hoje em dia, muitos comunistas saudosos  ainda reclamam de sabotagem para com as experiências do comunismo, sem se dar conta de que a vida humana não pode se sujeitar ao capricho das   "experiências" dos detentores do poder. Lênin foi o grande inaugurador das "teses" defendidas nos plenários de seu partido.  Gostaríamos  de fazer aqui duas citações:

        1) a primeira, da quadra VI,19, de Lord Acton:

        "Suffer no man and no cause to escape the undying penalty which history has the power to inflict on wrong."

       ("Nenhum homem ou causa está ao abrigo da penalidade imorredoura que a História tem o poder de infligir ao erro")

        2) A segunda, muito apropriada, no caso do regime comunista:

    "A teoria política baseada na especulação e na mera boa intenção, em lugar de princípios e experiência, está fadada a falhar pois carece dos indicadores históricos necessários para estabelecer o nível e a prudência de uma política. A História e a tradição nos ensinam um número de importantes (e estreitamente relacionadas) lições políticas e  mais notadamente a de que tanto a lei quanto a política precisam ser fortificadas pela história e pelo hábito" (Relatório Swartz ,  The Importance of History and Tradition,  Dr. Michael Bauman )

[ Nós não estamos endossando nem  contestando o conteúdo ideológico da publicação ou o alinhamento político dos autores, apenas citamos o trecho por achá-lo aplicável à análise do leninismo ]

         Nostradamus fala, em II,28, dos ensaios de Lênin ("As Teses de Abril", por exemplo) e de toda uma postura revolucionária que se confundiu com os movimentos intelectuais de esquerda. Evita, no entanto,  a visão fantasiada da História e de seus personagens. Como poderá ser visto no exame das demais quadras e  interpretações diretamente associadas à Revolução Comunista de 1917.  (Ver, por exemplo, X,98 e V,26).

        A menção aos "testes" da Revolução Comunista pode ser encontrada em II,28.   Um dos  resultados práticos deles foram milhões de mortos pela fome. E ao fim,  a União Soviética desaba sob uma enorme crise econômica da qual vem se recuperando lentamente ao longo dos anos.

        O quarto verso tem a sua razão de ser. Ver, por exemplo, VI,61. Porém, entendamos que Nostradamus refere-se a toda uma concepção de abordagem do mundo a partir do que seria "a primeira experiência socialista". Muitos dos líderes da Revolução de 1917 são venerados (intelectualmente) -  como Lênin, em particular -   e  considerados heróis.  Não é essa a nossa avaliação.

        Lênin foi o primeiro de uma dinastia de governantes comunistas que prezou a ausência de bondade e a falta de respeito pela vida humana como praxe de exercício do poder. Chaplin, em "O Grande  Ditador",  dizia que os números absolvem e esse é o caso de líderes comunistas (ou que se intitulavam como tal)   tristemente  famosos, particularmente Lênin e Stalin. Porque a única maneira da História vir a absolvê-los será pelo altíssimo o número de mortos sob suas responsabilidades. No caso, da morte pela fome. Seu conceito de luta de classes tinha aplicação direta em simplificações que qualquer mente ligeiramente sofisticada rejeitaria.

        Marx propunha abolição da propriedade privada. Lênin propunha "Paz, Terra, Pão" numa violação direta  do postulado marxista da abolição da propriedade privada (prometia a propriedade da terra). Logo que assumiu o poder, veio o Decreto da Terra, os confiscos ("Comunismo de Guerra" foi a justificativa tardia), o Terror Vermelho, a insana  luta contra os camponeses e principalmente ao que era identificado como "burguesia" (pequena, grande, tanto fazia). E a promessa era "Paz, Terra, Pão". Não deu nenhum dos três. Tirou todos. Trouxe a fome,  a miséria,  o medo e a morte ao seio de seu povo. Em seus escritos e correspondências o termo "sem piedade" é bastante comum.  E há os que dizem que isto não é indício de nada.

    O mundo polarizou-se anos a fio, sob a ameaça imediata de hecatombes atômicas unicamente suportadas pela  mobilização de massas populares sob as palavras de ordem do ativismo político em nome de uma revolução pretensamente universal. (ver X,98). A sua universalidade acabou por gerar reações injustas nas mesmas proporções e um dos efeitos, provavelmente oposto ao esperado - ou talvez, de acordo com conceito hegeliano de Lenin sobre a luta de classes, exatamente o que era esperado -, foi o fortalecimento da extrema-direita em vários países do mundo, principalmente   nos mais desenvolvidos o que acabou por gerar, em particular na América do Sul, estados ditatoriais títeres, com o fim de barrar a subversão implícita na conquista do poder pela ideologia comunista. O que aconteceu aqui no Brasil, em particular a Revolução de 64,  a  não passou despercebido por Nostradamus (Ver V,65).

Sem dúvida que este é um julgamento forte, pelo qual assumimos inteira responsabilidade  ideológica.  Mas fica difícil não jogar sobre os ombros de Lênin o fardo histórico de ter criado um monstro estatal, dando início a práticas que foram seguidas e aperfeiçoadas por Stalin. O aproveitamento e aplicação dessas idéias na visão comunista de Mao Tsé Tung  veio apenas consubstanciar a noção que de internacional a revolução comunista só possuía  a capa da justificativa ideológica para os crimes mais bárbaros cometidos contra a humanidade, em nome dos mais destituídos.

     
     
Referências
     
 VI,74, I,52, VI,19, II,28, X,98, V,26, VI,61, V,65.
     
Notas
     
21-JAN-2003.  Revisão de texto.
     

19-DEZ-2002. Correção da tradução dos terceiro e quartos versos. Como sempre, quando, para simplificar,   usamos como base a interpretação de uma figura que se (auto)intitula(va) modestamente a "maior autoridade em Nostradamus de todos os tempos", diz que "podemos perdoar uns pequenos erros de Nostradamus",  em geral dá nisso: temos que voltar para corrigir tudo. Basta ver a nota  mais antiga. Não dá para confiar nem um pouquinho. O cara é canelada pura. E esse é um  dos motivos porque não recomendamos obra alguma. Quase sempre, tudo  é "chute".

     
29-AGO-2002. Revisão de  texto.
     
22-FEV-2002.  Revisão de toda a quadra, mudando o todo o significado. Voltaremos a esta quadra oportunamente.
     
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