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Esta quadra refere-se ao advento do comunismo e das características
gerais das quais se revestiu. Igualmente, Nostradamus começa postular
seu julgamento sobre esse movimento, indicando a verdadeira natureza
dos fatos e personagens históricos associados, em particular relacionados
com a Rússia e estendido a outras Repúblicas limítrofes,
que por setenta e três anos e oito meses, em termos globais,
constituíram a União Soviética, da Revolução
de Outubro de 1917 até a eleição de Boris Yeltsin
em junho de 1991, que é a data geralmente aceita como a de seu término. (ver VI,74)
O primeiro verso estabelece a
nacionalidade predominante dos envolvidos (eslavos=russos, esclaves= escravizados,
pessoas destituídas).
É importante compreender
os papéis da servidão e da escravidão na Rússia,
para entender os componentes do czarismo embutidos na Revolução
Comunista Russa.
Com a eclosão das idéias
liberalizantes que acabaram por desaguar na Revolução Francesa,
a nobreza européia assumiu duas posturas distintas:
1) muitos países adotaram
uma política anti-escravagista e reduziram ou eliminaram a escravidão/servidão,
principalmente do campesinato
2) a Rússia, contrariamente,
viu nas idéias libertárias da Revolução
Francesa uma ameaça e nadou contra a correnteza. Catarina, a
Grande, por meio da distribuição de terras - muitos dizem que
a seus inúmeros amantes (e parece haver pelo menos uma quadra
referindo-se a ela) - acabou por aprofundar o regime de servidão -
vassalos - e de escravidão. A escravidão, na Rússia,
só foi abolida oficialmente em 1861.
É nesse cenário
pós-escravagista que o embate de idéias da Revolução
Comunista Russa se desenvolve e fortalece. Seus principais líderes,
Lênin, Trotsky, Stalin, e outros, foram criados sob a cultura de uma
sociedade anacrônica. Esse anacronismo acabou por se evidenciar no
campo econômico-militar, com as derrotas da Rússia para
o Japão (1904/1905) e para a Alemanha (1918) e a subseqüente
desorganização interna, da qual aproveitaram-se os bolchevistas
para se auto-ungirem defensores do proletariado. Um proletariado do qual
acabaram por ser os maiores algozes, como deverão mostrar as interpretações
das Profecias de Nostradamus relacionadas a esse período.
Sobretudo, a Rússia era
essencialmente uma sociedade rural, tanto cultural quanto economicamente.
E uma das heranças mais terríveis do czarismo eram os campos
de trabalho forçado na Sibéria. Em 1914, 9 milhões de
pessoas viviam na Sibéria. Desses, um milhão eram prisioneiros.
Lênin, Trotsky e Stalin passaram por períodos na Sibéria
nessa condição.
Essa introdução
serve para justificar os dois primeiros versos. A gente escrava relaciona-se
com a difícil situação de penúria do campesinato
russo, justificando a comparação com um sistema de escravidão
- ou servidão - do sistema econômico em que viviam. Juntando-se
a isso, a exigência da industrialização acabou por criar uma massa de
trabalhadores submetidos a condições efetivamente restritivas,
em que pese essa situação não ser unicamente uma decorrência
do czarismo.
Voltando ao primeiro verso,
as canções mencionadas são bem conhecidas (Hino da Internacional
Socialista, e outros) e os cânticos, as passeatas, palavras de
ordem repetidas em coro contendo reivindicações, ilustram
a feição que a luta da Revolução Comunista assumiu
e por conseguinte, o primeiro verso é bastante claro quanto ao seu
significado.
O segundo verso fala dos presos
políticos. Como ele refere-se aos cativos pelos príncipes e
senhor, está indicando o regime czarista como o autor das prisões (era uma monarquia). Seigneur é uma das formas pelas quais Nostradamus
designa o czar (ver I,52). Sobretudo, a polícia czarista, a Okrana,
parece indicada, por elipse.
O terceiro e quarto versos
falam do caráter carismático de seus líderes e da irresponsabilidade
com que suas teses e experiências eram aceitas, em tudo uma confusa aplicação do
que seria uma dialética hegeliana. As massas de destituídos acabaram sendo as maiores
vítimas dos regimes instituídos sob essa bandeira. Ideologicamente, por maiores
que fossem as atrocidades cometidas por aqueles que empunhavam a
bandeira do anticomunismo, da extrema-direita e do conservantismo - de
forma absolutamente insensível e egoísta - as atrocidades da Revolução
Comunista de 1917 são ímpares na história e desequilibram o fiel da
balança, mesmo considerando do outro lado a manutenção de um regime
semifeudal anacrônico.
É curioso notar que até hoje
em dia, muitos comunistas saudosos ainda reclamam de sabotagem para
com as experiências do comunismo, sem se dar conta de que a vida humana
não pode se sujeitar ao capricho das "experiências" dos detentores
do poder. Lênin foi o grande inaugurador das "teses" defendidas nos
plenários de seu partido. Gostaríamos de fazer aqui
duas citações:
1) a primeira, da quadra
VI,19, de Lord Acton:
"Suffer no man and no cause to
escape the undying penalty which history has the power to
inflict on wrong."
("Nenhum homem ou causa está
ao abrigo da penalidade imorredoura que a História tem o poder de
infligir ao erro")
2) A segunda, muito apropriada, no caso do regime comunista:
"A teoria política baseada na especulação
e na mera boa intenção, em lugar de princípios e experiência,
está fadada a falhar pois carece dos indicadores históricos
necessários para estabelecer o nível e a prudência de
uma política. A História e a tradição nos ensinam
um número de importantes (e estreitamente relacionadas) lições
políticas e mais notadamente a de que tanto a lei quanto a política
precisam ser fortificadas pela história e pelo hábito" (Relatório
Swartz , The Importance of History and Tradition, Dr. Michael
Bauman )
[ Nós não estamos endossando nem contestando o conteúdo
ideológico da publicação ou o alinhamento político
dos autores, apenas citamos o trecho por achá-lo aplicável
à análise do leninismo ]
Nostradamus fala, em
II,28, dos ensaios de Lênin ("As Teses de Abril", por exemplo) e de
toda uma postura revolucionária que se confundiu com os movimentos
intelectuais de esquerda. Evita, no entanto, a visão fantasiada
da História e de seus personagens. Como poderá ser visto no
exame das demais quadras e interpretações diretamente
associadas à Revolução Comunista de 1917. (Ver,
por exemplo, X,98 e V,26).
A menção
aos "testes" da Revolução Comunista pode ser encontrada em
II,28. Um dos resultados práticos deles foram milhões
de mortos pela fome. E ao fim, a União Soviética desaba sob uma enorme
crise econômica da qual vem se recuperando lentamente ao longo dos anos.
O quarto verso tem a sua razão
de ser. Ver, por exemplo, VI,61. Porém, entendamos que Nostradamus
refere-se a toda uma concepção de abordagem do mundo a partir
do que seria "a primeira experiência socialista". Muitos dos líderes
da Revolução de 1917 são venerados (intelectualmente)
- como Lênin, em particular - e considerados
heróis. Não é essa a nossa avaliação.
Lênin foi o primeiro de
uma dinastia de governantes comunistas que prezou a ausência de bondade
e a falta de respeito pela vida humana como praxe de exercício do
poder. Chaplin, em "O Grande Ditador", dizia que os números
absolvem e esse é o caso de líderes comunistas (ou que se intitulavam
como tal) tristemente famosos, particularmente Lênin
e Stalin. Porque a única maneira da História vir a absolvê-los
será pelo altíssimo o número de mortos sob suas responsabilidades.
No caso, da morte pela fome. Seu conceito de luta de classes tinha aplicação
direta em simplificações que qualquer mente ligeiramente sofisticada
rejeitaria.
Marx propunha abolição
da propriedade privada. Lênin propunha "Paz, Terra, Pão" numa
violação direta do postulado marxista da abolição
da propriedade privada (prometia a propriedade da terra). Logo que assumiu
o poder, veio o Decreto da Terra, os confiscos ("Comunismo de Guerra" foi
a justificativa tardia), o Terror Vermelho, a insana luta contra os
camponeses e principalmente ao que era identificado como "burguesia" (pequena,
grande, tanto fazia). E a promessa era "Paz, Terra, Pão". Não
deu nenhum dos três. Tirou todos. Trouxe a fome, a miséria,
o medo e a morte ao seio de seu povo. Em seus escritos e correspondências
o termo "sem piedade" é bastante comum. E há os que dizem que isto
não é indício de nada.
O mundo polarizou-se anos a fio, sob a ameaça
imediata de hecatombes atômicas unicamente suportadas pela mobilização de
massas populares sob as palavras de ordem do ativismo político em nome de uma
revolução pretensamente universal. (ver X,98). A
sua universalidade acabou por gerar reações injustas nas mesmas proporções e um
dos efeitos, provavelmente oposto ao esperado - ou talvez, de acordo com
conceito hegeliano de Lenin sobre a luta de classes, exatamente o que era
esperado -, foi o fortalecimento da extrema-direita em vários países do mundo,
principalmente nos mais desenvolvidos o que acabou por gerar, em
particular na América do Sul, estados ditatoriais títeres, com o fim de barrar a
subversão implícita na conquista do poder pela ideologia comunista. O que
aconteceu aqui no Brasil, em particular a Revolução de 64, a não
passou despercebido por Nostradamus (Ver V,65).
Sem dúvida
que este é um julgamento forte, pelo qual assumimos inteira responsabilidade
ideológica. Mas fica difícil não jogar sobre os ombros de Lênin o fardo
histórico de ter criado um monstro estatal, dando início a práticas que foram
seguidas e aperfeiçoadas por Stalin. O aproveitamento e aplicação dessas idéias
na visão comunista de Mao Tsé Tung veio apenas consubstanciar a noção que
de internacional a revolução comunista só possuía a capa da justificativa
ideológica para os crimes mais bárbaros cometidos contra a humanidade, em nome
dos mais destituídos.
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