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Esta é uma quadra difícil de ser analisada, principalmente para quem não acompanhou os acontecimentos. Um dos motivos é que há uns três candidatos a "ave de rapina" (L'oyseau de proye): Hitler, Stalin e Mussolini. O parada é dura. A ave de rapina é um pássaro que vive da pilhagem; captura presas indefesas. Prato cheio para os três. Só que esta está "esvoaçante à janela". O segundo verso diz que "às portas do conflito" (avant= et ant) ela (a ave) irá induzir nos franceses uma fantasia. Hitler, foi quem provocou o conflito ao invadir a Polônia, logo não faz muito sentido dizer que ele estava "à janela", isto é de longe. Estava dentro da Polônia mesmo. Stalin estava de fora, pelo menos logo no início, mas não teve nada a ver com a França. Sobra Mussolini. Aí a coisa muda de figura. Uma das características de Mussolini eram seus discursos nas sacadas ou de locais altos (vide ilustrações).( Eu sei, Hitler também. E também Stalin. Sigamos em frente para ver como fica) O terceiro verso é uma construção um pouco complicada. O termo bon quer dizer garantia por escrito, acordo, tratado (à época de Nostradamus, embora essa não seja uma exigência). O verso então fala do que foi proposto aos franceses (e ingleses) por Mussolini, às portas da Segunda Guerra: para um [lado] tratado [bon] assegurado, na mão (prendra) e para o outro [lado, restava um futuro] ambíguo sinistro. Um lado, é claro, era constituído pela Inglaterra e França. Esses dois teriam, um a promessa do Führer de proteger o império inglês em qualquer parte do mundo (até parece, a Marinha Britânica tinha o triplo em tonelagem da alemã e a Alemanha era que iria "proteger" a Inglaterra em qualquer parte do mundo. Pode?) e o outro, a França, a garantia de que as reivindicações territoriais alemãs sobre áreas situadas em solo francês já haviam cessado desde a anexação do Sarre. Então, imaginemos a "conferência" que Mussolini propôs: 1) França e Inglaterra , com as suas garantias (que, de fato, não queriam dizer grande coisa com o Tratado teuto-Soviético assinado, essa era a verdade, mas foi o que os franceses tomaram, por um bom negócio) 2) A Alemanha, dentro da Polônia 3) A Itália, com Mussolini dando um "show" como o grande "condutor" da solução 4) A Polônia, bem, era para ela se entender com essa turma desse jeito e mais Stalin, Ribbentrop, Goering, Luftwafe, Whermatch, Kriegsmarine, SS, blitzkrieg, Gestapo, Bayer, Keitel, Borman, Himmler, Goebels, von Brauchist, Jodl, Dr. Morell (o das injeções), Hess, Speer, Fegelein, panzer, Otto Remer, Eichman, Fleury, Terceiro Comando, Don e Ravel, Mao, PCC, Baile Funk, Hooligans, Al-Qaeda, Má Vontade, Comando Vermelho, epidemia de dengue, Escadinha, Jáder, Sendero Luminoso, anão do orçamento, Lagoa Rodrigo de Freitas, Malvadeza, Amigos dos Amigos, racionamento, Lei Falcão, ranário, Menudos, DOPS, Pol Pot (...onde está você, eu preciso saber onde andas, mas já já eu te encontro... acompanhamento musical, por favor...), $$ (oops!), DOICODI, turco Fujimori, Carandiru, distensão lenta e gradual e vamos parar por aqui senão acabo na cadeia. Bacaninha, não é mesmo? Mussolini esperava que a Polônia cumprisse o papel de uma nova Tchecoeslováquia, em uma reedição do Tratado de Munique. Ele já se via brilhando. Houvera sido relator em Munique e queria repetir a dose. ( A carta que ele enviou ao Führer traçando os principais pontos pode ser encontrada em Ascenção e Queda do III Reich de Willian Schirer, vol. 2, pag. 454) Vamos voltar no tempo. Desde o Mein Kampf que Hitler vinha com a cantilena de que o negócio dele era avançar em direção às terras do Leste (União Soviética) e que não queria nada com o Oeste. Ao assumir o poder em 1933, uma das regiões que passaram ao controle alemão foi o Sarre, após uma votação expressiva, em processo (mais ou menos) pacífico. O Sarre pertencia à França, à época. Em seguida vieram as ocupações militares (na mão grande, Renânia -ver III,81- e Tchecoeslováquia - ver VI,90) ou disfaçadas (Áustria). E Hitler explorou a expectativa de que nem a Inglaterra e nem a França iriam entrar juntas em conflito contra ele por causa de terra dos outros. Depois do papelão de Munique ver (VI,90), Chamberlain não tinha mais como cooperar com a política de Hitler, ainda que inadvertidamente. Mas a França nutria aquele sentimento de que, depois da Polônia, Hitler iria se voltar para o Leste. Mussolini tentou explorar em proveito próprio esse nicho. Vamos ver como. Ao ser assinado o Pacto Teuto-Soviético (23-AGO-1939), Mussolini (e as torcidas do Flamengo, Vasco, Fluminense(nense!), Coríntians e São Paulo juntas) sabia que a guerra vinha a galope. O exército italiano era fraco e despreparado e pelos entendimentos com a Alemanha, a guerra só deveria ser deflagrada em 1942/1943. O Pacto colocou a Itália ante um impasse: se entrasse na guerra, poderia sofrer represálias para as quais (sabidamente) não estava preparada para responder. Se recusasse, poderia perder prestígio junto ao Führer. Além, de ter que resistir às pressões. Mussolini escolheu uma terceira via que conciliasse as duas alternativas. Recusou-se a entrar na guerra, tirando o corpo fora por meio de uma carta a Hitler em que dizia (25-AGO-1939): "...
2) se a Alemanha atacar a Polônia e seus aliados contra-atacarem, informo-vos com antecedência que não será oportuno para mim tomar a iniciativa nas operações militares, face ao atual estado dos preparativos de guerra italianos, dos quais repetidamente demos notícia ... [ Quer dizer, se tudo desse certo e ele estaria presente como sempre esteve com seu apoio nas horas difíceis. Mas se tivesse problema. o fürher que entendesse com os caras, afinal de contas o problema era ele que havia criado e encrenqueiro tem que resolver as próprias encrencas. É bom ver gente assim, não é? Solidário, chega junto...]
3) não obstante, nossa
intervenção pode ocorrer imediatamente caso a
Alemanha nos forneça já os suprimentos militares e
as matérias primas para resistir ao ataque que os ingleses
e franceses devem dirigir de preferência contra nós...
e
vai por aí a fora. Os suprimentos militares e matérias
primas para entrega imediata? Lista a seguir:
1) sete milhões de toneladas de
petróleo Grande garoto, não é mesmo? Havia mais, a lista foi cortada. O Führer ficou primeiro deprimido, depois veio o Dr. Morell que deu-lhe umas pílulas caprichadas com estricnina e ele melhorou (brincadeira, mas a história do Dr. Morel e das suas pílulas com estricnina é verdadeira. Pena que ele não tenha errado na mão uma vezinha só). O Führer depois teve que usar peruca de pelos pubianos porque arrancou um por um. (correspondências de 01-SET e após). Isso foi comunicado à Inglaterra e à França. A ave de rapina estava fora do conflito, pelo menos nesse momento. Estava à janela. E doida para limpar a barra com o Fuhrer e equilibrar um pouco a balança por causa de Stalin, em função do Pacto. Afinal de contas o principal aliado devia ser ele. Se tudo desse certo, é claro. Mussolini, então, joga uma cartada. Aproveitando-se da expectativa da França de não cumprir o tratado que ela mantinha com a Polônia em caso de agressão ("o negócio não era com ela" ) estabelece uma linha de comunicação por meio dos embaixadores da França e Inglaterra, em Roma, propondo uma conferência em 5 de setembro contando com a presença da Alemanha, França, Inglaterra, Itália e Polônia para discutir o Tratado de Versailhes, que era a causa dos conflitos, segundo o entendimento deles lá. (Essa era a tal da proposta, aquela história de L'un bon prendra, l'autre ambigue sinistre ). O detalhamento dessa iniciativa é longo. e não iremos colocá-lo aqui. Os interessados podem consultar Ascensão e Queda do III Reich de Willian Schirer, vol. 2, para uma referência bastante completa e documentada. O ponto é que o Ministro das Relações Exteriores da França, George Bonnet, um pacifista de carteirinha, entrou de gaiato na história e mesmo quando já não havia mais o que fazer, pois o avanço das tropas alemãs na Polônia era irreversível, persistia em reverter a situação, baseado na idéia de que era possível a França não entrar na guerra por causa da Polônia, que o negócio não era com ela e coisa e tal. Bonnet chegou a ir ao Rei Leopoldo para que ele instasse junto a Mussolini para que Mussolini tentasse influenciar Hitler a negociar, quando o próprio Mussolini e Ciano já haviam desistido. Bonnet se aferrou a essa possibilidade como quem se agarra a uma bóia salva-vidas em meio a um naufrágio. Chegou a falar em uma "retirada simbólica" (madrugada de 2 para 3 de setembro), das tropas alemãs de solo polonês, quando a guerra já ia longe e os cadáveres dos poloneses se acumulavam. A declaração de guerra dos franceses foi retardada (saiu às 12 horas de 03-SET-1939) por causa dessa iniciativa. E saiu separada da dos ingleses. Bonnet julgou aquela porcaria toda (para não dizer outra coisa; eu não sou bom nesse negócio de apócope não, eu vou é no popular mesmo - ver V,26) de Mussolini um bom augúrio. (La partie foible tiendra par bonne augure). Cabe observar que a proposta de Mussolini era, segundo as correspondências da época, uma tentativa de reedição do "Acordo de Munique" (ver VI,90) , quando ele fora o grande condutor da proposta que vigorou. É claro, para isso iam sobrar terras e vantagens para Hitler, ocupação para a Polônia (como na Tchecoeslováquia), traição para a França (que estava apaixonada pela idéia) e Inglaterra (Chamberlaim não era marinheiro de primeira viagem) e barra limpa com o Führer para ele, além de reduzir a influência do novo incômodo aliado bolchevista a diminuir-lhe a importância. A atitude firme da Inglaterra em só aceitar a conferência proposta com a retirada dos alemães do território polonês botou água na história toda. Nesse episódio, se formos acompanhar o início das hostilidades por meio das negociações que envolveram Chamberlain e um sueco apadrinhado por Goering, a história já será outra. Mas isso são outros quinhentos. Ou, quem sabe, outra quadra. Algumas relações numéricas IV, 34 => 4, 34 => 4+3+1 = 08 => AGO-1939, mês em que se desenrolou a trama. |
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Referências |
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Notas |
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19-FEV-2002. Uma quadra bastante difícil de interpretar. Principalmente porque o terceiro verso daria margem para ser considerado uma referência ao Pacto Teuto-Soviético e o termo ave de rapina também se aplica a Hitler como uma luva. Nostradamus deixou alguns indícios sobre quem era quem no primeiro (fenestre, a forma "italiana" de janela); o quarto verso fala em "bonne" dando uma pequena dica para George Bonnet. Mas ainda assim, é uma quadra difícil, principalmente pelo pseudocognato "bon", que também quer dizer garantia por escrito, tratado. O segundo verso também dá margem a muitas especulações sobre qual seria a ilusão. A ilusão precisa ser considerada face ao primeiro verso, após verificar-se que era Mussolini o citado. Para complicar, Hitler também assumia muitas facetas e as usava, mudando as circunstâncias por meio de declarações, atitudes contraditórias, rompantes e por isso a quadra X,66 o chama de um "anticristo tão falso". Após assinar o Pacto com a União Soviética, ele teve a cara de pau de oferecer aos ingleses "garantia para o império da Grã-Bretanha", em uma proposta de 16 de pontos. Para Mussolini disse, após o pacto com a União Soviética, que o negócio dele era abrir caminho para o Leste. E tudo isso dificultou muito a interpretação da quadra. Esta quadra é um exemplo da complexidade do trabalho de Nostradamus e por isso, temos muito, mas muito cuidado mesmo, em divulgar uma interpretação na hp, em respeito, no mínimo, à sua memória. A interpretação desta quadra ocupou, literalmente, alguns meses. E também é um lembrete contra as interpretações incompletas, baseadas no "eu acho", "deve haver", etc , que muitas vezes são engolidas como se fossem umas pérolas mas que são absolutamente vazias, não só de contéudo como também de nexo. "Fechar" uma quadra é uma tarefa difícil que leva tempo. É preciso investigar, confirmar cada afirmativa, a ligação entre cada verso, a seqüência no tempo, e se possível estabelecer as ligações dentro de um contexto com outras quadras e quase sempre, corrigi-la ao longo do tempo. Há, em geral, uma história contada, cheia de interligações e não fatos isolados. |
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